Opiniões

A lição de um velho que vivia atrás da cadeia montanhosa dos Libombos

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Estêvão Chavisso

Não fosse a seca prolongada, provocada pelo El Niño, que devastava o sul de Moçambique naquele ano, provavelmente Domingos Wasitela estivesse na fase da colheita de alimentos no seu quintal em Matsequenha, atrás da cadeia montanhosa dos Libombos.

Wasitela somava, provavelmente, oito décadas, mas já não se lembrava com exactidão da sua idade. Viveu, no entanto, o suficiente para ver a fome e a miséria sufocarem muitos sonhos no sul de Moçambique.

Quando o conheci, em 2016, Wasitela, já com a bengala na mão, andava a colher o pouco que restava da sua produção agrícola de quintal, durante um período de seca prolongada que deixou mais 1,5 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar em Moçambique.

A quietude que normalmente domina a localidade de Matsequenha, a pouco mais de 65 quilómetros da sede distrital de Namaacha, não escondia o desespero das famílias e, em cada esquina, era possível ver as diferentes faces da fome.

Encravada nas montanhosas terras do distrito turístico de Namaacha, a terra de Domingos Wasitela vivia o drama de uma localidade esquecida atrás dos montes da cadeia dos Libombos, num paradoxo em que a miséria de populações abandonadas no meio do nada misturava-se com o espectáculo natural oferecido pelas montanhas de um dos mais belos pontos da província de Maputo.

À entrada de Matsequenha, os extensos campos secos, as estradas de terra batida e o rio Movene quase enxuto revelam uma localidade em desespero em plena fase final da época de colheita: Junho.

Eu tinha sido destacado na redacção para fazer a cobertura daquele drama humanitário, numa altura em que o terrorismo e as manifestações pós-eleitorais não eram pautas nos jornais e a magia de uma reportagem estava na “caneta”, antes do jornalismo de inteligência artificial e de “podcast”.

Com o natural entusiasmo de jovem repórter apaixonado, na altura eu levava comigo um gravador e um bloco de notas quando invadi o quintal de Domingos Wasitela para pedir uma entrevista sobre a seca. Sereno e sorridente, de bengala na mão, sem dizer uma palavra, o velho Wasitela ofereceu-me cadeira e, antes mesmo de me dar uma resposta ao pedido, deu início ao clássico ritual Machangana de saudação.

Levemente embaraçado, respondi também em Xichangana para minimizar os danos de um erro tão amador, mas já era tarde e a conversa seguiu o seu rumo. Apresentei-me, identificando o órgão ao qual pertencia e voltei ao meu pedido: a entrevista.

Já em português, olhando-me nos olhos, Wasitela questionou-me: “o que é que gostava de saber, tendo em conta que a fome é visível em cada canto desta casa?”.

Hesitante, olhei para o quintal do velho e percebi que a história que eu procurava estava estampada em cada canto daquele lugar. Naquele instante, eu vi a tragédia de um homem que perdeu tudo para o tempo e, na sua pequena palhota feita de caniço, na encosta de uma das montanhas de Namaacha, sobrevivia com o que podia.

“Não tenho nada senão esta velha [a esposa] que podem ver aqui comigo”, declarava Domingos Wasitela, com uma dose de humor à mistura, arrancando-me um sorriso espontâneo, no mesmo momento em que reparei na mulher de Wasitela saindo do interior de uma das palhotas com um prato de batata-doce nas mãos.

Dirigiu-se a mim, sorridente, com uma saudação e ofereceu-me o prato, sob o olhar atento de Wasitela. Tentei, primeiro, rejeitar, alegando que não havia qualquer necessidade. Mas, olhando-me nos olhos com a serenidade de ancião, Wasitela disse: “por mais extrema que seja a pobreza aqui, nós nunca vamos perder a virtude de partilhar. Podes comer”.

Recebi e agradeci, visivelmente estupefacto por ter a certeza de que se tratava do pouco que restava dos alimentos que a família tinha guardado face à crise que me tinha levado àquele local.

Sem que perguntasse, depois disso, Wasitela contou-me o seu passado e presente, destacando que desde que foi abandonado pelos três filhos a vida tem sido um enorme desafio, entre a miséria, fome e a natural velhice.

Eu devo ter feito mais duas ou três perguntas essenciais para a história e depois desliguei o gravador, próximo suficiente para que Wasitela notasse que já não estava a ser gravado.

Sentado à porta da sua palhota, sem mais perguntas, com um prato de batata-doce na mão, eu ouvi aquele velho contar, com um sorriso na cara, a sua história, que era muito mais interessante que a seca que me tinha levado à cadeia montanhosa dos Libombos naquela manhã cinzenta.

Mais livre, sorridente e leve, Wasitela voltou a um passado distante e contou-me a história da sua juventude, os sonhos e as expectativas de uma geração que, entusiasmada, foi descalça à Machava para ouvir Samora Machel anunciar a libertação de um povo.

Enquanto Wasitela falava, eu podia ver o orgulho que o tomava por ter pertencido àquela geração, numa descrição repleta de vida, contrária, no entanto, ao presente bastardo que a vida tinha reservado para si.

Por quase uma hora; ouvi, encantado, aquele velho falar de tudo e mais um pouco. Era hora de ir embora, despedi-me, mas tinha uma última pergunta a fazer: Eu queria saber de onde vinha a força que mantinha aquele velho de bengala na mão atrás da cadeia montanhosa dos Libombos, no meio de tantos desafios. Wasitela sorriu e respondeu: a minha força vem daquela velha que te ofereceu o último prato de comida que tínhamos para hoje.

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