Opiniões

O Futuro não começa amanhã

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Celina Henriques

Na reunião de Quadros que teve lugar em Chimoio no fim de semana findo, uma frase de André Constantino ficou a ecoar na minha mente, entre tantas outras que ali foram proferidas: “Queremos, como jovens, ser protagonistas do futuro que deixaremos amanhã.”

Enquanto a frase era dita naquela sala, comecei a imaginar que algures, fora dela, havia, muito provavelmente, um jovem à espera de uma oportunidade que ainda não chegara. Outro preparava-se, nervoso, para uma entrevista de emprego. Outro terminava um curso superior sem saber onde iria aplicar aquilo que aprendera. Outro já trabalhava, mas sem contrato, sem protecção social e sem a certeza de que o mês seguinte seria igual ao anterior. E outro, talvez, estivesse já dentro de uma instituição, sentado numa sala onde as decisões se tomam, mas ainda sem saber se a sua voz seria, de facto, ouvida. É neste cenário que a frase de Constantino ganha o seu verdadeiro peso.

Porque há nela uma pergunta que vai muito além da juventude: a quem pertence o amanhã? Se os jovens são, simultaneamente, aqueles que irão construir o futuro e aqueles que terão de o herdar, então aquilo que fazemos, ou deixamos de fazer, hoje determina não apenas o país que lhes entregaremos, mas também aquele que eles, mais tarde, terão de entregar às gerações seguintes.

Há muito que repetimos que “a juventude é o futuro do país”. A frase tornou-se tão habitual que, em muitos contextos, já perdeu força. É utilizada para encerrar discursos, inaugurações e cerimónias, mas raramente obriga quem a pronuncia a responder à pergunta seguinte: o que estamos a fazer hoje para que esse futuro seja possível?

Talvez seja tempo de mudar a lógica. A juventude moçambicana não quer ser apenas o futuro. Quer participar na construção do presente. Não quer ser chamada apenas para assistir. Quer ser chamada para decidir.

E há uma diferença fundamental entre falar sobre a juventude e confiar na juventude. Podemos criar programas para jovens, políticas para jovens, discursos sobre jovens, secretarias e instituições dedicadas à juventude e, ainda assim, continuar a mantê-la longe das decisões que mais directamente dizem respeito ao seu próprio futuro.

É um fenómeno que vale a pena nomear com precisão: ser protagonista não é o mesmo que ser utilizado como protagonista. Há jovens nas fotografias oficiais, nos painéis, nas conferências, nas campanhas e nas cerimónias de abertura. A imagem da juventude está presente. Mas a presença numa fotografia não significa necessariamente participação.

Ser convidado para uma sala não significa ter lugar à mesa. E estar sentado à mesa não significa, por si só, ter poder para influenciar aquilo que ali se decide.

É aqui que o conceito de protagonismo ganha importância.

Protagonismo significa ter espaço, mas também responsabilidade. Significa receber confiança, mas também responder pelas consequências das decisões tomadas. Significa poder ocupar funções onde seja necessário decidir, prestar contas, corrigir erros e aprender com eles. Significa poder apresentar uma ideia diferente sem que a diferença seja imediatamente confundida com desrespeito.

Significa, sobretudo, deixar de olhar para o jovem apenas como alguém que precisa de ser orientado e começar a reconhecê-lo também como alguém capaz de orientar, decidir e assumir responsabilidades. Esta discussão não acontece num vazio demográfico.

Moçambique é um país jovem. Dados do Fundo de População das Nações Unidas, baseados em projecções associadas ao Censo de 2017, indicam que cerca de 80% da população moçambicana tem menos de 35 anos. O Censo 2017 do Instituto Nacional de Estatística, considerando especificamente a faixa dos 15 aos 35 anos, a definição oficial de juventude em Moçambique, apontava para cerca de 9,4 milhões de jovens, aproximadamente 34% da população.

Moçambique é, demograficamente, um país de jovens. Todos os anos, centenas de milhares de jovens chegam à idade activa e procuram uma oportunidade. É uma pressão enorme sobre uma economia que nem sempre consegue criar empregos em quantidade e qualidade suficientes.

Por isso, falar de protagonismo juvenil sem falar de educação, emprego, formação profissional, empreendedorismo, acesso ao financiamento, tecnologia, protecção social e qualidade das instituições seria falar apenas de uma parte da história.

Mas também seria injusto transformar esta reflexão numa reivindicação unilateral.Ser protagonista não pode significar apenas exigir oportunidades. Significa estar preparado para assumir responsabilidades quando a oportunidade chega.

O jovem protagonista precisa de conhecimento, disciplina, ética profissional, capacidade de ouvir os mais velhos sem se lhes subordinar cegamente, espírito crítico e disposição para trabalhar, muitas vezes em contextos de escassez.Precisa de compreender que liderança não é ocupar uma posição. Liderança é responder pelas consequências da posição que se ocupa.

E aqui está uma responsabilidade que pertence à própria juventude. A idade, por si só, não confere competência. Ser jovem não substitui o mérito. A juventude não pode transformar-se numa espécie de salvo-conduto que dispense preparação, disciplina ou resultados. Mas o contrário também é verdadeiro.

A experiência não pode transformar-se numa licença permanente para impedir a renovação. Nenhuma geração permanece eternamente no comando de um país.

É por isso que a transmissão de conhecimento entre gerações não deve ser uma disputa pelo espaço, mas uma construção de continuidade. Os mais velhos têm experiência que não deve ser desperdiçada. Os mais jovens têm energia, novas perspectivas e uma relação diferente com as transformações que estão a acontecer no mundo.

Um país inteligente não escolhe entre uns e outros. Faz com que aprendam uns com os outros.O futuro, afinal, não é uma data marcada no calendário nacional. Não começa amanhã. Está a ser construído agora.Na escola que funciona ou que não funciona. Na instituição pública que atende bem ou mal quem a procura. Na empresa que forma os seus trabalhadores ou simplesmente os explora. Na decisão de um dirigente de ouvir uma ideia apresentada por um técnico jovem ou de a ignorar apenas porque veio de alguém com menos anos.

Está também na capacidade de um jovem permanecer íntegro quando ninguém está a vigiá-lo. Está na qualidade do trabalho invisível que se faz todos os dias, sem aplausos, sem fotografias e sem discursos. O futuro é, portanto, o resultado acumulado das escolhas que fazemos no presente.

E um país cuja população é maioritariamente jovem não pode dar-se ao luxo de adiar essa construção. Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja apenas: Estão os jovens preparados para o futuro? É preciso fazer a pergunta inversa, com a mesma seriedade: Estamos nós preparados para lhes entregar esse futuro? A responsabilidade é dos dois lados.

A juventude deve preparar-se. Deve estudar, trabalhar, adquirir competências, respeitar os princípios, aceitar responsabilidades e provar, pelos resultados, que merece a confiança que reivindica. Mas as instituições e as gerações que hoje ocupam posições de decisão também precisam de abrir portas reais. Precisam de transmitir conhecimento com generosidade. Precisam de criar oportunidades que não terminem em programas simbólicosPrecisam de aceitar que formar uma nova geração de dirigentes, técnicos, empresários, investigadores, jornalistas, professores e servidores públicos não é perder poder. É garantir a continuidade do país.

Quando André Constantino disse, naquela reunião de Quadros, que os jovens querem ser protagonistas do futuro que deixarão amanhã, talvez a frase contenha uma exigência maior do que parece.Não é um pedido por um lugar de honra no futuro.É um  pedido por um lugar à mesa hoje. Um lugar com trabalho. Com responsabilidade. Com risco. Com cobrança. Com prestação de contas. Moçambique é estatisticamente um país de jovens.

O verdadeiro desafio é fazer com que seja também, na prática, um país que confia nos seus jovens o suficiente para lhes entregar responsabilidades reais. Porque o futuro não começa amanhã. Começa no momento em que decidimos quem pode participar na sua construção. E talvez seja essa a pergunta que devemos deixar de adiar: quando dizemos que os jovens são o futuro, estamos realmente a prepará-los para receber o país ou estamos apenas a pedir-lhes que esperem pela sua vez?

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