Opiniões

M´Pamene: O cinema de quintal que ensinou uma geração a socos e pontapés

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Estêvão Chavisso

Dei por mim, noutro dia, com olhar distante, a remoer memórias de há mais de 25 anos, quando me apaixonei pelo cinema. Eu sou daquela geração simples, cuja introdução ao cinema foi feita no “M´Pamene”, as salas de cinema improvisadas em quintais que denominaram os subúrbios da capital moçambicana nas décadas de 1990 e princípios de 2000.

O termo “M´Pamene” foi certamente um empréstimo ao Mpama, que em Xichangana quer dizer bofetada, tendo em conta que o principal critério para avaliar a qualidade de um filme nas salas era o nível de pancadaria entre os actores.

Noutro dia, o meu vizinho, com quem por diversas vezes frequentei estes locais, abandonou a sala depois de constatar que 20 minutos se tinham passado desde o começo de um filme qualquer que estava em estreia e não havia registo sequer de uma bofetada entre os actores.

Levantou-se, exigiu a devolução do valor da entrada e foi-se embora, extremamente indignado, taxando o dono da sala de irresponsável e charlatão.

O “M´Pamene” mais próximo do meu Bairro na altura ficava a uns 15 minutos a pé do lugar onde vivia e a entrada custava 1000 meticais da antiga Família (1 metical, hoje), um valor que quase sempre era resultado de um assalto meticulosamente orquestrado à carteira da minha velha.

Era uma operação de risco, não só pelo furto, mas também porque desaparecer de casa por quase duas horas já constituía uma infração grave, cuja pena variava em função do humor da minha mãe.

Os métodos de tortura da minha mãe eram requintados, desde “sovas” simples, com cinto ou chinelo, até ao tenebroso mecanismo para infrações gravíssimas, que começava com seguinte orientação: “vai procurar uma vara do teu tamanho” – como devem imaginar, eu levava em dobro, já que, só com 12 anos, somava quase um 1,65 de altura, totalmente anormal no lugar onde nasci.

Mas, mesmo perante o risco, ir ao “M´Pamene” tornou-se um dos nossos principais programas durante a infância, numa altura em que o mundo tinha já começado a substituir o VHS pelo DVD, em finais da década de 1990.

Lembro-me ainda do primeiro filme que vi no “M´Pamene”: “Kickboxer – O Desafio do Dragão”, um filme de artes marciais dirigido por Mark DiSalle e que a minha geração teve a ousadia de simplificar o título para: “Van Damme e Tong Po”.

Pouco mais de uma dezena de miúdos pálidos sentados no chão de uma sala, escura e abafada, improvisada num quintal de uma casa em Hulene, com os olhos fixos numa Philips Magnavox de 19 polegadas.

Na maioria, sequer percebíamos o que se dizia no filme, mas estávamos lá, complemente engolidos pela sequência dos eventos e fascinados pelo som amplificado de socos e pontapés de Van Damme. Era mágico e contagiante.

Maioritariamente sentados em posição de lótus, pequenos corredores eram abertos para a bacia de biscoitos (Matoritoris ou fiosses), normalmente a 500 meticais da antiga família (50 centavos, hoje).

Quem tinha dinheiro comprava, mas a bacia de biscoitos à venda dentro da sala dividia opiniões, já que não eram poucas as vezes que depois do consumo dos biscoitos, repentinamente, flatos eram silenciosamente evacuados, levando a multidão aos berros naquela sala abafada, no meio do filme.

Mas abandonar a sala não era opção e, por isso, depois de fortes contestações, as atenções voltavam-se para a Philips Magnavox de 19 polegadas, embora as golas das camisetas permanecessem no nariz por algum tempo face ao risco de se perder a consciência por asfixia devido aos gazes.

Sem anúncios, trailer ou críticas, a grelha de filmes que nos era dada não sofria qualquer tipo de crivo e era quase a mesma que circulava nos outros bairros da capital. Era é o que existia no nosso mercado, quase sempre atrasado.

Numa sala cheia de miúdos, lembro-me de, com o 12 ou 13 anos, ver as cenas de sexo de Van Damme, que curiosamente fazia um esforço titânico para incluir pelo menos uma cena em todos os filmes que fazia.

Desde Arnold Schwarzenegger, que teve o seu nome simplificado no meu bairro para “Comando, NwaMutofo”, devido os seus filmes “Comando para Matar” (1985) e “O Exterminador Implacável” (1984), passando por Sylvester Stallone, que simplesmente passou a Rambo, também devido à sua série de filmes baseados no romance “First Blood”, de Devid Morrel, até Jet Lee e Jackie Chan, este último que passou a Jackie “Chandi”.

Todas estas figuras e outras passaram a fazer parte da nossa infância, dentro e fora do “M´Pamene”. Sentados na areia, à luz de um dos poucos postes com iluminação da nossa rua, as conversas e discussões giravam à volta destes filmes, da coragem dos atores e da acção.

Não havia telemóveis, a internet era um privilégio de poucos e a vida era na esquina. O prestígio era a soma do número de filmes vistos, numa altura em que os “Spoilers” eram autorizados e podíamos perder horas ouvindo alguém a contar-nos sobre um filme, por vezes sem que essa mesma pessoa o tenha realmente visto.

O “M´Pamene” moldou a infância de uma geração inteira nos subúrbios de Maputo e, embora a socos e pontapés, pintou utopias com narrativas heroicas para uma geração que tinha poucas opções.

Era um cinema à altura de qualquer um e que, se estas iniciativas tivessem tido o devido apoio e orientação, como foi feito durante o KuxaKanema, após a independência, por exemplo, poderiam ter moldado gerações e criado pequenas indústrias locais, evitando a vergonha que hoje atravessamos, sem cinema nas comunidades.

Hoje, embora cada vez mais raro, em algumas zonas, ainda existem salas de cinema como estas em algumas comunidades e, talvez, este fosse um caminho para devolver o gosto pela sétima arte num país que um dia foi uma referência regional na produção de documentários.

E, certamente, com mais alternativas aos socos e pontapés que marcaram a minha incursão no cinema.

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