Opiniões

O desafio do ministro de me tirar da escuridão

Share this

Alexandre Chiure

No dia 8 de Julho, Maputo colheu uma conferência internacional para debater o desenvolvimento inclusivo e sustentável do país, evento que se realizou por iniciativa do Ministério da Planificação e Desenvolvimento, liderado pelo meu amigo Dr. Salimo Valá. Com uma plateia de luxo, feita de decisores políticos, académicos e parceiros sociais, o encontro tinha como objectivos e temas o balanço estratégico, nomeadamente a análise do percurso de desenvolvimento do país entre 2000 e 2025.

A conferência, de um dia, debateu, igualmente, a transformação económica ou seja a industrialização, inovação e sustentabilidade para os próximos 25 anos, bem como do crescimento económico em bem-estar real para a população.  Na oportunidade, houve momentos de críticas e autocríticas. Foram apresentadas ideias excelentes, conceitos e pensamentos estratégicos ou académicos interessantes sobre o tema do dia. Foram apresentados sonhos sobre o que se espera de Moçambique daqui a 25 anos.

Algumas das coisas que foram ditas no encontro não constituíram nenhuma novidade para mim e creio que para os moçambicanos em geral. Já ouvi apresentações similares noutras conferências. Acompanhei reflexões destas em ocasiões anteriores.

Oportunidades nunca faltaram para dizer o que se deve e o que não deve fazer para sairmos do sufoco, da pobreza extrema, da dependência em relação às importações, de um país empobrecido para um país verdadeiramente rico. Já se realizaram tantos seminários neste país em que se debateu o desenvolvimento do país, os caminhos a seguir para atingirmos o crescimento desejado.

Se existem estudos sobre a situação económica do país. Se o país dispõe de projectos brilhantes. Se temos ao nosso alcance vários modelos de desenvolvimento. Se temos acesso a experiências de como os outros países fizeram para chegarem onde chegaram. Se temos recursos naturais abundantes porque é que continuamos pobres? Se temos todo este espólio de conhecimentos e de experiências, porque é que não saímos de onde estamos?

Os nossos problemas são dois ou três. O primeiro é o de seguimento e continuidade. Há tanta coisa que se fala nos seminários, conferências ou reuniões que se fossem levadas em conta, o país seria diferente, mas quase tudo morre nos papéis, começa e termina nos debates. Não há um esforço no sentido de elaborar um plano de acção com prioridades e prazos de execução para a implementação dessas ideias para o bem do país.

Eu ando desgastado com isso. Estou cansado de ouvir quase as mesmas coisas a serem apresentadas e discutidas em seminários. Estou decepcionado com o facto de boas ideias e projectos perderem-se por ai por falta de aproveitamento. O que é que estamos a fazer? O que é que queremos como governo ou como país? Eu não sei. Aliás, na conferência pude dizer que me sinto completamente perdido na escuridão. Faz pouco mais de dez anos que estou nesta situação. Confesso que não sei para que direcção vamos como país. A plateia bateu palmas, o que me pareceu solidarizar-se comigo.

O ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salimo Valá, levou o assunto a sério. Ao encerrar a conferência, deixou expresso, publicamente, que me ia convidar para uma conversa no seu gabinete, que se materializou. Um bate-papo do qual sairiam com uma bússola para dar-me a direcção que me levaria à saída da escuridão. Foi outro motivo para mais palmas.

Fiquei frente a frente com peças-chaves do ministério. Cada um apresentou o seu sector. Falaram-me dos fundos, projectos e estratégias existentes ou em implementação. Fiquei impressionado, sim, com o que ouvi na sala, mas, lá está o problema. Até que ponto é que tudo aquilo será transformado em realidade? Quais são as garantias de que o próximo governo dará continuidade a estas ideias? Essas dúvidas continuam a perturbar-me, Espero que, no fim do dia,; me surpreenda com os resultados.

A conferência internacional inclusiva e sustentável fez o balanço da Agenda 2025. Não há nada de palpável que foi feito no âmbito deste programa. Passados 25 anos, nada mudou no país. Não se nota nenhum desenvolvimento. Pelo contrário, estamos cada vez mais pobres. O que é que falhou entre nós?

O professor Elísio Macamo disse, num dos painéis, que os planos são susceptíveis de falhar. Concordo plenamente com ele, só que quando falham do jeito que falham no nosso país, é preocupante. Das duas, uma. Ou é a qualidade de quem os elabora, ou é dos próprios planos que não são bons ou estes são tão bem feitos e sofisticados que não se adequam à nossa realidade.

Cá comigo, um dos problemas que nós temos é a falta de seguimento de ideias ou projectos. No caso da Agenda 2025, falou-se, escreveu-se e, pura e simplesmente, ao que tudo indica, não se implementou o que se tinha planificado. Elaborou-se uma nova agenda, a 2050.

Quem é que nos garante que, desta vez, o plano será executado? Nenhuma. Para começar, nada obriga ao governo do dia a cumprir com o que está escrito nela. O outro problema é a falta de continuidade. Cada governo vem com os seus projectos e ideias. Não quer saber dos projectos dos outros governos, ainda que sejam bons.

O segundo grande problema é a falta de seriedade. Não estamos a ser sérios connosco mesmo. Fazemos de conta que estamos a trabalhar, enquanto não. Os chineses do projecto Wambau, na baixa de Limpopo, promoveram, há dias, um curso para a transmissão de conhecimentos sobre a produção do arroz, no âmbito do acordo que teve com o governo. No lugar de agricultores que eram os visados, participaram esposas de dirigentes ou pessoas influentes que não têm sequer um canteiro. É grave e revela, sim senhor, falta de seriedade,

Há um ou dois anos, o governo central mandou importar autocarros para o reforço da frota de transportes públicos de passageiros e resolveu dar uma parte desses meios ao sector privado. Ao invés de transportadores, como se esperava, ou gente conhecedora do negócio ou sector, alguns desses autocarros pararam nas mãos de antigos combatentes, OMM e outros sem nenhuma capacidade de gestão da frota, nem experiência no ramo.

Na primeira avaria do carro, pior porque são chineses e não há peças no país para a sua manutenção, arruma-se. É o problema de transporte que não se resolve. É o cidadão que sofre. Está a faltar-nos seriedade e ponto final. Assim, não chegaremos a lado nenhum. Continuaremos a falar de desenvolvimento, mas nunca seremos um país desenvolvido e eu continuarei perdido na minha escuridão.

Share this

Leave a comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Related Articles
Opiniões

M´Pamene: O cinema de quintal que ensinou uma geração a socos e pontapés

Share thisEstêvão Chavisso Dei por mim, noutro dia, com olhar distante, a...

Opiniões

O Futuro não começa amanhã

Share thisCelina Henriques Na reunião de Quadros que teve lugar em Chimoio...

Opiniões

O Cálculo Estratégico por Detrás da Conferência de Quadros da FRELIMO

Share thisShipeni Thovela Encerrou no domingo, em Chimoio, a 11ª Conferência Nacional...

Opiniões

Fragilidades institucionais que prejudicam o país

Share thisAlexandre Chiure Há dias, passou, num dos canais privados de televisão,...