HOJE quinta-feira , 23 abril 2026
Home Opiniões A riqueza do subsolo como alavanca de poder: entre oportunidade histórica e responsabilidade política
Opiniões

A riqueza do subsolo como alavanca de poder: entre oportunidade histórica e responsabilidade política

Share
Share

Share this

Nilza Dacal

 Moçambique não é um país pobre. É na verdade, uma nação rica em recursos que ainda não conseguiu transformar essa abundância subterrânea em capital económico duradouro, influência real e prosperidade que chegue a todos. O gás natural da Bacia do Rovuma, os minerais estratégicos, as areias pesadas e o carvão colocam o país numa posição única no mapa energético e industrial do mundo. A grande questão já não é o que temos debaixo da terra, mas sim como vamos usar o que temos.

Transformar riqueza natural em verdadeiro poder nacional vai muito além de extrair e vender. Significa converter esses recursos em activos financeiros sólidos, infra-estruturas que gerem valor, conhecimento técnico e instituições que resistam ao tempo. Os países que hoje contam no mundo fizeram precisamente isso: usaram os seus recursos como trampolim para construir soberania económica e influência duradoura.

Para Moçambique, chegou o momento de mudar de abordagem. Durante muito tempo, olhámos para os recursos naturais sobretudo como fonte rápida de dinheiro ou como forma de atrair investimento estrangeiro. Isso tem o seu lugar, mas não chega. A verdadeira ambição tem de ser mais alta: usar o subsolo para construir um Estado mais forte, uma economia diversificada e uma sociedade mais justa e inclusiva.

O primeiro passo essencial é reforçar a governação e a transparência. A história está cheia de exemplos em que a riqueza dos recursos se transformou numa maldição, alimentando corrupção, desigualdades e conflitos. Mas quando bem gerida, pode ser o motor de uma transformação profunda. Isso exige instituições sólidas, contratos justos e uma fiscalização séria que coloque sempre o interesse nacional em primeiro lugar.

Um caso africano que continua a inspirar é o do Botswana. Desde a independência, o país pegou nos diamantes, que representam uma fatia enorme do PIB e das exportações e transformou-os num instrumento de desenvolvimento estável. Criou o Pula Fund e, mais recentemente em 2025, o novo Fundo Soberano de Riqueza, geridos com disciplina e transparência. Em vez de deixar o dinheiro desaparecer ou concentrar-se em poucas mãos, investiu em educação gratuita, saúde e infra-estruturas. O resultado é um dos países mais estáveis e prósperos de África, com uma democracia sólida e uma visão clara para o futuro. Mesmo com os desafios actuais do mercado de diamantes, o Botswana mostra que é possível fazer diferente.

Em segundo lugar, precisamos de criar mecanismos sérios de capitalização interna. Fundos soberanos bem estruturados podem transformar receitas voláteis em poupança para as gerações futuras, estabilizar a economia e financiar investimentos estratégicos. Ao mesmo tempo, é crucial ligar os grandes projectos extractivos à economia real do país, através de conteúdo local forte, cadeias de valor e industrialização.

O Gana oferece uma lição prática e recente. Desde que descobriu petróleo offshore em 2007, criou os Ghana Petroleum Funds, um para estabilizar a economia em tempos de crise e outro para proteger as gerações vindouras. Até ao final de 2025, esses fundos já acumulavam mais de 1,5 mil milhões de dólares. Apesar de algumas dificuldades com a produção e debates sobre como usar o dinheiro, o quadro legal permitiu canalizar receitas para desenvolvimento social e infra-estruturas. Para Moçambique, onde o Rovuma LNG avança e se espera a Decisão Final de Investimento ainda em 2026, criar um fundo soberano transparente e robusto pode ser uma das decisões mais importantes dos próximos anos.

Em terceiro lugar, devemos usar a riqueza do subsolo como uma verdadeira alavanca de poder económico. Num mundo onde a energia e os recursos minerais definem cada vez mais quem tem influência, Moçambique tem a oportunidade de se afirmar como um actor relevante. Isso passa por uma diplomacia económica mais assertiva, pela diversificação de parceiros e por negociações que maximizem o valor que fica no país.

Mas nada disto funcionará sem investir seriamente nas pessoas. Educação de qualidade, formação técnica e capacitação institucional são o verdadeiro segredo. São as pessoas e não apenas o gás ou os minerais, que transformam potencial em prosperidade real e duradoura. Tanto no Botswana como no Gana, parte das receitas foi direccionada para o desenvolvimento humano, gerando benefícios que vão muito além da extracção.

Por fim, há uma dimensão ética e política que não podemos ignorar. Gerir recursos naturais não é só uma questão de economia ou contratos. É, acima de tudo, uma questão de justiça entre gerações. O que extraímos hoje pertence também aos nossos filhos e netos. A forma como decidirmos usar esta riqueza vai definir não só o presente, mas o tipo de país que deixaremos para o futuro.

Moçambique está hoje perante uma escolha histórica. Pode continuar no papel de exportador de matérias-primas, dependente das oscilações dos mercados internacionais, ou pode tornar-se uma nação que usa os seus recursos de forma estratégica para construir soberania económica, instituições resilientes e desenvolvimento que beneficie todos.

A diferença entre estes dois caminhos não está no que está debaixo da terra. Está nas decisões que tomamos aqui à superfície, na qualidade das nossas instituições, na visão dos nossos líderes e no compromisso colectivo com o bem comum.

Com os projectos de gás a ganharem força em 2026, a janela de oportunidade está bem aberta. Aproveitá-la com ambição, disciplina e honestidade não é apenas uma responsabilidade nacional. É também uma contribuição importante para o debate africano e global, sobre como os recursos naturais podem servir o progresso humano num mundo em profunda transformação.

Share this

Share

Leave a comment

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Não perca

Inundações colocam província sul-africana de Limpopo em alerta máximo

As autoridades da província sul-africana de Limpopo estão em alerta máximo, devido as inundações que continuam a afectar várias partes da região. A...

HCB aposta em nova central para expandir fornecimento de energia

A empresa Hidroeléctrica de Cahora Bassa – HCB, pretende  se reafirmar como o maior fornecedor da energia eléctrica aos países da região Austral...

Data atual quinta-feira , 23 abril 2026
Our Featured Learn More
Related Articles

O preço dos empréstimos do Banco Mundial e do FMI

Share thisAlexandre Chiure Moçambique aderiu, formalmente, em 1984, ao Banco Mundial e...

O Estado no bolso do cidadão: a reforma que ainda não fizemos, mas precisamos

Share thisNilza Dacal Moçambique atravessa uma das contradições mais reveladoras da sua...

Daniel Chapo e a reconfiguração do Estado moçambicano

Share thisArão Valoi Num País habituado a alternar entre ciclos de entusiasmo...

As difíceis configurações institucionais em tempo de crise

Share thisLuca Bussotti Várias foram as surpresas de cunho político ocorridas ao...

Copyright 2025 ZONA TATICA. All rights reserved powered by zonatatica.com